Eis que novamente surge a saudade
Mas não se trata apenas de solidão,
Mas sim, é uma agonia múltipla.
É algo mais intenso que sufoca,
É uma dor que machuca, corrói,
Tem o efeito de uma lâmina na carne.
É estar ausente quando presente.
É um ranger de dentes intermitente.
Dá-se a imoderada inquietação,
Todo o corpo lateja impaciente.
A mente vegeta sob a recordação.
O sangue ferve nas veias.
Magoado, o coração bate acelerado
E quando o véu negro da noite,
Abraça os noturnos corações carentes,
Quando toda a metrópole adormece,
O poeta absorve e alimenta a depressão.
Ele vê as cenas do passado ressurgirem,
Lembra dos bares que compartilhou,
Chora pela união que não provou,
Lamenta ter sido culpado pela separação.
Tudo acabou tão friamente, sem despedidas.
Jamais imaginou como pesa um abandono.
E de repente a memória pune.
Seu consolo é viver solitário.
Hoje o poeta sabe a dimensão,
E quanto é doloroso sentir o abandono.
No coração de um poeta solitário,
Habitam várias paixões imaginárias.
Mas o que significa a saudade,
Senão um estado de ser que fascina o fraco?
As horas passam e a saudade caminha,
E o seu mundo sem o amor é triste,
Escuro, indiferente a tudo e a todos
Mergulhado no abismo a procura de nada,
Tentando prolongar o seu lamento.
Eis que novamente surge o desamor
Trazendo com ele a solidão doentia.
O poeta sente a dor e transcreve.
Mais uma vez ele se encontra pasmo,
Feito um trailer do desassossego,
Ele se vê arrastado pelo encanto
Da amada inesquecível,
beleza que, há de seda-lo
por toda sinuosa existência!
Mas, num raciocínio
Num relance de lucidez,
Concluiu que as palavras têm
A magia de transportar
As emoções do coração
Até o inventivo papel.
E por mais que
Tão doce sensibilidade
Seja amplamente absorvida
Através de sentimentos,
O poeta capta, interpreta,
Vive e canta o amor;
E sempre será absoluto,
Maior que a dor.
Remove lacunas intransponíveis.
Num tempo é altamente ativo,
Noutro tempo, absorto, estacionado.
Mas sempre inquieto na solidão,
Falando e buscando o amor
Que ficou em algum lugar do passado,
Copiosamente abraça o desamor.
Outra vez deprimido,
Entende que a vida se tornou maçante.
Os sonhos não aconteceram.
O coração desistiu do amor.
Os últimos sentimentos
Escorreram pela alma
Imitando o desaguar
Das últimas lágrimas,
Todos os sonhos imaginados
Foram jogadas ao vento
E o pranto rendeu-se ao mar.
A canção fora interrompida.
Fez-se enfim, o silêncio fúnebre,
Subtraindo a voz do poeta;
Abandonando a massa flácida
E libertando a cansada aura.
Tudo caminhava para ser
O início do trágico fim.
Num último esforço ponderou que
O poeta viaja na ilusão do momento,
Abraça a utopia externando insanidade,
Chorando um amor abstrato, esmaecido.
O poeta é alucinado, um louco sonhador.
Sempre escreve para alguém no além!
Ínfima pretensão de solicitar amor,
Se, a penumbra é companheira fiel,
Sempre acompanhada da solidão mordaz
Que se alimenta da cáustica depressão!
Porque o ato silencioso está inserido,
Em palavras tristonhas e dissimuladas,
Em evidente vingança
Contra o amor que há muito se foi?
Talvez esse amor inexista
E a trajetória seja falsa,
Estaria o poeta vivendo
Uma eterna simulação de vida,
Em outra dimensão,
Incubado no tempo, digno de pena
Vegetando num mundo paralelo?
Um amor não correspondido
Subtrai o prazer pela vida
E determina que a poesia
É mais que palavras,
É a extensão do coração.
Em suma, qual é a intenção do Poeta,
Senão implorar um amor nulificado
Que o condena a abster-se
de novas conquistas e infinitamente
Alienado por uma única paixão
Semelhante a um jardim
Com sua roseira espinhosa?
O poeta capta o exato momento da emoção,
Incorpora o sonho e mostra esperança,
Sorri para o amor que está a um passo.
Teu canto é ouvido em todas as vidas.
Conversar com o coração é doar-se,
Sempre iluminando a penumbra,
Rebatendo a solidão com o carinho
Que é predicado para reaver a esperança.
O ato silencioso é a reflexão da criação,
Dita de maneira terna e consistente
Que às vezes só pode ser entendida
Por alguém que queira ser feliz.
O poeta exerce a função de
Artesão das palavras,
Revigora o coração, tornando-o amável,
Quem escreve, doa o coração,
Esculpindo a beleza da vida
E declarando que o sonho
Pode se tornar realidade,
Sendo o combustível que
mantem a inabalável esperança.
Quem sabe, aquele amor do passado
Não se faz presente
Ainda que no futuro?
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"ESCREVO O QUE SINTO, MAS NÃO VIVO O QUE ESCREVO"