Paulo Izael
Escrevo o que sinto, mas não vivo o que escrevo.
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UMA LOUCURA QUALQUER


Só de pensar que...
O dia amanheceu zangado, intragável.
O céu estava pintado de cinza degradante.
Senti um acréscimo de inutilidade
Invadir minha insana alma.
Seria mais um dia estafante,
Eu estava cansado de mim.
Nuvens obesas se digladiavam
E emitiam sons assustadores.
Num segundo o temporal chegou
Trazendo um enxame de raios.
Senti um clarão fisgar meu braço.
Olhei meu corpo sangrar
E vi meu antebraço se ausentar do corpo
E rolar pela enxurrada que apavorava.
Senti-me agraciado pela desgraça,
A dor apaziguava os demônios da mente
E afastava qualquer manifestação afetiva.
Busquei um cigarro no bolso encharcado,
Fui acender, me lembrei da ausência do braço.
Vasculhei o bueiro e resgatei minha parte.
Fiz um esforço e encaixei-o tortuoso.
Fiquei chateado por ter danificado uma rosa
Mas não havia essência na enrugada flor.
Inexplicavelmente lembrei-me do passado.
Indignado, avivei momentos com meu amor.
“Ora yê yê ô! , saudei oxum para me ajudar.
Senti o vento agitar a marola,
Era a divindade que vinha movendo o dedo,
Negativando o momento,
Não aprovando reminiscências infrutíferas.
Finalmente acreditei
Que seria infeliz para sempre.
Amargurado, lembrei que um dia,
Havia visto a marca da traição
À mostra no teu pescoço,
Não queria acreditar, me engabelei,
Mas a verdade agora ouço.
A chuva ácida queimava
E banhava minha encardida face.
Vi um casal de pássaros pedindo ajuda,
Um era caolho, o outro coxo.
Tentei incendiá-los, mas fugiram feito flash.
Desatei em prantos, depois abri um sorriso,
Engoli uma caixa de tarja preta,
Senti um tremor na orelha,
Num raro espasmo de memória,
Lembrei-me do mestre Van Gogh,
Num esforço, abaixo do osso temporal,
meus dentes rasgaram a cartilagem;
Minhas mãos tingidas de vermelho.
Em êxtase admirei a orelha entre os dedos.
Representava muito mais que um troféu,
Era a emancipação da alma, a vitória.
Finalmente a loucura estava voltando...
A demência nutria forças para delirar,
Era lindo desalinhar os planetas
E fazer medo em almas penadas.
Me procurando, avistei no reflexo do espelho
Meu mudo olhar perdido no tempo.
Minha taciturna e inexpressiva imagem,
Me ignorou e nenhuma emoção refletiu.
Tampouco eu procurava no espelho
Um sorriso que nunca existiu.
Dei de costas cerrando os punhos,
Era noite, a rua sinuosa estava vazia.
Desci surfando nos paralelepípedos,
Acendi um cigarro e chutei latinhas.
O vento leve trouxe a chuva amena,
Areou o corpo, mas a aura estava escura
E o coração continuava encardido de ódio.
Fiz-me feliz ao abraçar o desconforto
Mergulhado numa loucura qualquer.


 
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 31/01/2018
Alterado em 25/05/2020
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