Paulo Izael
Escrevo o que sinto, mas não vivo o que escrevo.
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O DONO DO MUNDO!!!



Lúcio Fer, coçou a enrugada fronte, acendeu um cigarro e percebeu que era o último. Sentou-se no desfalecido sofá, remendado e gasto. Olhou para seu lar, em pedaços. Pensou em ligar o televisor, a energia fora cortado no dia anterior. Sentiu sede, a água também havia sido suprimida por falta de pagamento. Uma pilha de carnês vencidos mofava no armário embutido.
- Que vida desgraçada! – gritou.
Estava desempregado havia seis meses; por conta da péssima situação financeira, deu para beber e findou por perder esposa e filhos. Os parentes por sua vez, simplesmente o ignoravam.
- Como isso foi ocorrer, Deus do Céu?
Sexta feira treze. A noite era fria e chuvosa. Lúcio Fer catou os bolsos, tudo notinha pequena e as últimas moedas. Calculou que ainda seria possível comprar um maço de cigarros e tomar alguns tragos; também era filho de Deus, embora Deus lhe esquecesse vez em sempre.
Quando chegou no bar, avistou um amigo de longa data.
- Lúcio Fer, quanto tempo!? – gritou o amigo.
- É a correria da vida. E ai, me conta algo de bom.
- A coisa ta preta pra todo mundo. Disseram-me que você está separado?
Lúcio Fer, engoliu um copo de cachaça, tossiu e acendeu um cigarro.
- Amigo, quando a grana acaba, tudo cessa, todos se afastam. Perdi tudo.
Hermegenildo, o amigo de Lúcio Fer, cochichou em seu ouvido:
- To indo até um terreiro de macumba, que dizem ser o bicho! Lá o barato é louco, você pode pedir um emprego, amarrar um amor antigo e trazê-lo de volta...Enfim, acho que funciona mesmo, um amigo que esteve lá, saiu satisfeito.
- Vou com você, nada tenho a perder mesmo.
Seguiram para o terreiro de macumba. Lúcio Fer ficou impressionado com as entidades que baixavam no terreiro. Viu um pai de santo beber cinco garrafas de aguardente sem nenhum efeito de embriaguez.
Hermegenildo estava em sessão de passe. Lúcio Fer foi surpreendido com um sussurro:
- Sei do que precisa, acompanhe-me! – disse uma mulher com expressões sinistras.
Lúcio Fer a seguiu e chegaram numa sala pequena, iluminada com uma diminuta lâmpada incandescente, vermelha de 10 Watts. A mulher saiu e Lúcio Fer sentiu que sua vida iria se transformar.
- Eu posso ajudá-lo! – falou uma voz masculina, com polidez.
Lúcio Fer não estava vendo uma viva alma, mas a voz estava próxima dele.
- Quem disse que preciso de ajuda?
- Não há necessidade da palavra. Você não tem mais nada, nem dignidade possui! – disse a voz, agora um tanto ameaçadora.
- Está bem – assentiu Lúcio Fer. Como pode me ajudar, se nem corpo tens?
Feita mágica, do nada, materializou-se num cavalheiro de smoking e trejeitos suaves. Lúcio Fer foi tomado por uma súbita aceleração dos batimentos cardíacos.
- Quem é você, o diabo?
- O próprio. Mas, pode me chamar de Lúcifer. Aliás, seu nome Lúcio Fer, é quase idêntico ao meu e acredite, não puseram este nome  por acaso. Você estava predestinado a ser o maior homem da terra, desde seu nascimento.
Lúcio Fer foi tomado por medo. O cheiro de enxofre exalava. O diabo estava diante dele. Era algo surpreendente. “O maior homem da terra”, Lúcio Fer estava começando a gostar.
- Você pode ser o que desejar, ter o que quiser!
- Mas assim, de graça?
- Só peço sua compreensão para me dar à alma, quando estiver cheio de tudo.
- Dar minha alma, como assim?
- No momento oportuno, vai conviver comigo, lá em cima.
- Quer dizer no fogo do inferno?
- Essa coisa de fogo é lenda. Digamos, uma temperatura mais amena do que existem em certos partidos políticos.
Lúcio Fer estava a ponto de fechar negócio. Afinal seria o dono do mundo. Só descartaria a alma quando morresse.
- Pense nos benefícios. Recebo lá todos os dias, pessoas que mataram, estupraram, enfim, fizeram mal. E repare que alguns desses morreram na cadeia e nem sequer gozaram a vida e se foram como mendigos. Não estou pedindo pra você matar ninguém, apenas ser imensamente rico e poderoso.
- E se eu quiser ser presidente do Brasil.
O diabo pensou, coçou os chifres e respondeu:
- Melhor não. Com política nem eu me meto. Depois tem aquele trauma do Color de Melo, mensalão do Lula, correios...Se você insistir, dou um jeito mas não aconselho. É muita manobra.
- Tava brincando. Quantos anos viverei, se fechar negócio?
- Vejamos, você está com trinta anos...Que tal mais vinte?
- Mais cinqüenta e não se fala mais nisso.
- Bom, deixe-me eu consultar uma promoção, se ainda não acabou, encaixo você.
O diabo ligou pro inferno, o celular estava em brasa. Falou com o gerente geral sobre promoção na aquisição de novas almas. Com aquela alma o diabo fecharia sou cota mensal. Falou sobre o alongamento de prazo e conseguira seu intento. Tudo acertado, Lúcio Fer estava  inserido na promoção.
- Ok! Você venceu! – disse o diabo, sorridente – Cedeu uma agulha para Lucio Fer, ambos fizeram um pequeno furo no polegar esquerdo e assinaram o contrato com o próprio sangue.
- Negócio fechado.
- Fechadíssimo. Daqui a cinqüenta anos, precisamente as 12:00, virei buscá-lo. Nem um segundo a menos ou a mais, senão incorrerá na quebra de contato e automaticamente acordo estará defeito.
Houve uma pequena explosão, o diabo desapareceu e levou consigo o enxofre e todo o dolor intragável. Lúcio Fer abriu os braços para cima, cerrou os punhos e bateu forte na parede dizendo:
- Sou tudo, o maior, sou o rei...
Voltou ao terreiro e todos olharam para ele com reverencia, e medo. Ajoelharam-se e beijaram seus sapatos. Apenas Hermegenildo estava de pé, atônito com a situação.
- O que aconteceu Lúcio Fer?
- Agora eu sou o rei.
Saíram do terreiro de macumba e conversaram longamente. Após duas horas de conversa, Hermegenildo já corria com Lúcio Fer, estava com ele, afinal, fora ele, Hermegenildo quem levara Lúcio fer pra tirar a sorte grande.
No dia seguinte pela manhã, um funcionário da companhia de eletricidade, tocou a companhia, dizendo que tinha ordens para retirar o medidor de luz. Lúcio Fer desejou o primeiro pedido, iria testar seu poder. Desejou ser o presidente da companhia de eletricidade. Num segundo depois, estava numa enorme sala de reuniões, com toda a diretoria da companhia, era ele o presidente. Gostou, ele era o mais forte de todos os homens! Ganhou sozinho na megasena durante um ano. Comprou o Paraguai, jogou contra Michael Jordan e foi o cestinha da partida. Teve um caso com Sharon Stones, ganhou várias corridas de Michael Schumacher. Comandou os rebeldes no Iraque. Tinha mais dinheiro que  a casa da moeda americana e 10 vezes mais rico que Bill Gates de acordo com a revista Forbes. Sempre trazia consigo, Hermegenildo, seu amigo e conselheiro e guru.
- Hermegenildo, estive pensando em explodir as torres gêmeas nos estados unidos, que acha.
- Ótima idéia. Vamos criar a maior rede de terrorismo de todos os tempos. Vamos dar o nome Al  Qaeda.  
- Beleza, gostei do nome. Então, eu serei o mentor do maior atentado da história. Arruma um nome pra mim. Bem bonito.
- Que tal Osama Bin Laden?
- Perfeito. Que dia é hoje?
- Dez de setembro.
- Então amanha o mundo conhecerá o meu poder...eh eh eh!
No dia Seguinte, os atentados em massa ocorreram nos estados unidos, dentre eles, dois aviões explodiram as torres gêmeas. O mundo estava boquiaberto.
Os anos se passaram e Lúcio Fer, acordou atordoado, foi até o quarto de Hermegenildo e disse assustado:
- Hoje completa cinqüenta anos desde o meu pacto com o demônio – olhou para o relógio – veja, o relógio marca 10:45. Portando, daqui à uma hora e quinze minutos o diabo virá buscar minha alma. Que é que eu faço?
Hermegenildo era seu guru, o pensador. Tinha por obrigação saber de uma solução para despistar o diabo.
- Sabia que o prazo era hoje. Mas não se preocupe, tenho a solução para engabelar o diabo. E tem mais, se passar das 12:00 hs, o acordo não vale mais e você estará livre desta maldição.
- Qual é o plano? – perguntou Lúcio Fer, com semblante temeroso.
- Primeiro vamos tomar café, ainda temos tempo.
Saborearem as delícias do café matinal. Depois, foram acertar as contas com o demônio. Lúcio Fer olhou novamente para o relógio. 11:50. Pararam em frente a uma catedral.
- Aqui?
- Justamente aqui, amigo Lúcio Fer. O demônio não tem acesso a igrejas. Portanto, devemos esperar alguns minutos ai dentro, depois vamos correr pro abraço...Vida livre e todo o dinheiro do mundo.
Lúcio fer se concedeu um largo sorriso. Era isso, a igreja seria seu escudo contra as forças ocultas. Entraram. Algumas pessoas rezavam. Foram dar com o padre, numa saleta atrás do confessionário.  O padre os recebeu com carinho e solidariedade. Beberam um delicioso café e prometeram contribuir com uma grande soma para obras de caridades da igreja. O padre lhes abraçou sorridente. Lúcio Fer olhou para o relógio de parede e viu com crescente entusiasmo que era 12:10. Ele havia engabelado o demônio, ele era novamente o rei, agora por méritos próprios. Piscou para Hermegenildo mostrando a hora. Ambos abraçaram o padre e prometeram voltar com os bolsos recheados.
Quando colocaram o pé na calçada, um carro desgovernado acertou Lúcio Fer com violência. Morte instantânea. Hermegenildo gritou para o demônio que estava sentado no volante do carro.
- Mentiroso, covarde! O trato era as 12:00, o relógio da igreja estava marcando 12:10.
- Pergunte ao padre sobre o relógio! – respondeu o demônio conduzindo a alma de Lúcio fer.
Hermegenildo entrou correndo na igreja e se dirigiu ao padre.
- O que há de errado com o relógio que estava marcando 12:10?
- Está parado neste horário há mais de um mês. Precisamos mandar consertá-lo.
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 26/07/2005
Alterado em 28/09/2005
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